Introdução

Olá, J por aqui!

Eu e a D tivemos a ideai de criar esse blog para contarmos um pouco da nossa rotina e de nossas experiências como um casal gay nessa cidade tão linda (porém tão atrasada) que é Florianópolis.

A ideia surgiu primeiro quando eu comentei com ela sobre alguns dos blogs que eu acompanho de casais de mulheres lésbicas, que contam sobre suas histórias de vida ou se felicitam com as pequenas e grandes vitórias do mundo LGBT, ou simplesmente mostram situações do dia a dia que podem ser engraçadas ou desafiantes, mas que são essencialmente “normais”.

Acho que o assunto surgiu enquanto a gente comentava sobre como era complicado muitas vezes para nós duas termos que passar por situações comuns como um casal, e então eu falei desses blogs, e sobre como essas mulheres eram orgulhosas de quem eram e tinham uma vida perfeitamente “normal”, e sobre como era legal que tinha muita gente ativa, militando pela causa, falando com orgulho sobre suas vidas. Só que então a D me fez uma pergunta que foi bem capciosa, na verdade: “mas elas são aqui do Brasil?” Er… não. Pois é. Não são do Brasil.

E não é que o Brasil não seja gay até uma certa porcentagem, na verdade eu acho que a gente tem gay pra caramba caminhando por aí (graças a deus), mas o problema é que o Brasil também é um país machista, um país sexista, um país moralista e portanto um país cabeça dura pra caramba. E parece que em Florianópolis as coisas são ainda mais difíceis – as pessoas são mais fechadas, são interesseiras, e não, elas não te respeitam pelo o que você.

O fato é que a gente sente que não pode ser quem é, quem gostaríamos de ser realmente. Não podemos com naturalidade dar as mãos na rua ou dar um beijinho uma na outra, ou dizer em uma lanchonete que estamos esperando a namorada sem que mudem o tratamento para com a gente, ou sem que alguém lance alguns olhares tortos. É bem chato na verdade. Eu particularmente ainda preciso a aprender a lidar com isso todos os dias, primeiro por que ter que esconder algo que é parte de mim e me faz feliz me soa como injustiça (o que eu supostamente não tenho que os outros tem, ou o que eu supostamente não sou que os outros são de tão melhor?), e também por que eu tenho os meus próprios problemas pessoais com insegurança, e ter que viver como uma criminosa, escondendo alguma coisa, não sendo quem eu gostaria de ser ou fingindo ser o que eu não sou (“diz que é só a sua amiga para não dar rolo, não dança com ela na formatura por que pode complicar as coisas, alguém pode bater em vocês”) acaba comigo. Eu não fiz nada de errado. Sou tão gente quanto qualquer outra gente, e amo outra pessoa que é tão gente quanto qualquer outra gente também.

Pode ser inocência minha querer uma vida “normal”, as pessoas podem perguntar “que vida normal você quer sendo lésbica nesse mundo?”, mas acho que eu tenho sim o direito de ser “normal”, de meter a cara no mundo me sentindo “normal”, agindo “normal”. As pessoas vão dizer “se esconde por que podem bater em você, se esconde por que ainda tem muita violência contra gente que nem você por aí!”, e eu penso “muito obrigada pela preocupação, de verdade, mas então o mundo LGBT precisa se esconder para o resto da eternidade, esperando uma mudança milagrosa dos ventos, que indique que as cabeças pequenas já aprenderam a aceitar melhor quem nós somos?” Uh-uh, I don’t think so. Eu entendo de verdade a preocupação de quem nos diz esse tipo de coisa, ninguém gosta de ver alguém querido correndo qualquer risco de se machucar, mas também acho que a gente não pode deixar esse moralismo babaca nos obrigar a baixar a cabeça e dizer “amém” para uma sociedade preconceituosa.

Quanto a sermos agredidas nada do tipo aconteceu com a gente até agora, então não posso falar nada a respeito disso como experiência pessoal, mas todo mundo sabe que bastante gente já foi agredida por ser gay, e aqui no Brasil, um país tão preconceituoso como ele é, imagino que seja uma realidade bem palpável, principalmente para os homens gays por que tem muita pressão em cima deles para que todo homem brasileiro seja “macho”. Não sei o que esse homem brasileiro tem que ele precisa sempre ser “macho”. Vai ver no fundo ele é gay e não quer admitir, ou não precisava se afirmar tanto.

E essa é uma das coisas que me incomoda bastante aqui de Florianópolis, por que aqui parece ser mais pesada essa questão do machismo, do sexismo, do moralismo. É como se as pessoas precisassem apontar a “falha” alheia para afirmar o próprio valor, o próprio caráter. Tipo, sério, gente? Caráter surge de dentro pra fora, não de fora pra dentro.

Mas o que animou a gente a escrever esse blog juntas foi tentar de alguma forma criar um espaço maior para um casal gay, e brasileiro, e mostrar a nossa realidade, tentar de alguma forma colocar a nossa vida no campo do “normal”, do “comum”.

Não fui atrás de blogs brasileiros sobre casais de mulheres lésbicas ou homens gays então não sei como anda a situação deles no momento, se já tem algum, e quantos são, e etc, e se tiver eu com certeza gostaria de seguir. Seria bom sentir que tem mais gente por aqui interessada em se abrir para o mundo, às vezes a gente pode se sentir bastante sozinha.

E não sei se é essa cidade que é difícil, que é pesada de se viver de certa forma, ou se é o tratamento cheio de dedos das nossas famílias, principalmente quando começamos a namorar, só sei que às vezes eu sinto como se tivesse que viver como uma criminosa, como uma pária até, alguém que comete um crime todos os dias por que tem uma namorada. Não sei colocar em palavras o quanto isso pode ser difícil, mas é algo que pesa, e que cansa, por que não, eu não sou criminosa, nem pária, e eu não cometo crime todos os dias. (E também minha namorada é linda pra caramba, e a beleza chegou ao mundo para ser vista e é muito mais legal se ela tá andando de mãos dadas comigo).

E toda essa dissimulação cansa, ninguém gosta de viver numa jaula etiquetado como, sei lá, “bicho estranho”. A gente quer respirar, a gente quer respeito, a gente quer tanto espaço quanto qualquer outra pessoa, e, não, gaytite não é uma doença e não se pega pela respiração, então pra quem não entende a nossa realidade direito ainda o melhor é cuidar da própria vida que a gente consegue cuidar legal da nossa.

Enfim, a gente tem algumas histórias para contar de algumas situações que aconteceram conosco, nada muito sério, por que nada de sério aconteceu realmente até agora, mas somos um casal gay tentando viver um dia depois do outro, e vamos postar coisas do nosso dia a dia e falar sobre nossa realidade tentando mostrar o quanto tentamos fazer as nossas vidas serem “normais”.

Have fun!

PS.: Aqui no meu trabalho qualquer site com a palavra “gay” parece que é bloqueado. Tentei fazer uma pesquisa para achar blogs gays aqui do Brasil e até achei alguns, só que essa titica censurou todas as páginas, então não faço ideia do que que eles falam realmente. Mas eu devia ter prestado atenção nos nomes que apareciam nos links também, eu coloquei “blog gay” na barra de pesquisa do google e fui abrindo os primeiros que apareceram, e depois eu vi que tinham umas coisas bem suspeitas como “gay-amadoras.blogspot”, “homem-tesao.blogspot” e “boysdecalcinha” hahahaha não acho que o filtro de sites de um órgão público deixaria esse tipo de coisa passar, right?

Anúncios

Um comentário sobre “Introdução

  1. I look forward to reading your stories (with help from Google translate.) Your description of Brazil and its culture reminds me of what life was like for gays and lesbians in my area 25 to 30 years ago, when I was first coming out and dating. I hope it does not take 25 to 30 years for Brazil to change enough for your lives to be seen as normal.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s