Desabafo da noite

Boa noite, galera.

“We were born sick
you heard them say it”

Resolvi escrever esse texto por que tem uma coisa me incomodando muito hoje. Vendo os vários comentários em uma reportagem sobre duas mulheres grávidas (lésbicas), comecei a pensar na época em que eu participava da igreja evangélica. Sim, já participei por alguns anos, onde eu costumava ir com meu ex namorado, com quem namorei durante cinco anos (entre idas e vindas). Mas ok, vamos começar pelo começo.

Desde pequena tive aquela sensação de que alguma coisa estava diferente em mim, mas não pensei muito até realmente começar a me sentir atraída por mulheres (meninas, naquela época). Conheci uma menina com quem me identifiquei, passamos por muitas coisa semelhante e acabamos descobrindo que as duas gostavam de meninas. Nos envolvemos e ficamos duas vezes. “Para saber como que é”, ela dizia. Dois meses depois destes beijos e abraços, ela começou a frequentar a igreja adventista, e todos os dias ela trazia alguma coisa nova para mim. Falava sobre o céu, o inferno, pecado, homossexualidade e sobre como tínhamos sido pecadoras. E estava na hora de eu me converter e fazer o que Deus realmente queria (nem eu sabia o que era), mas lembro de ter ficado com tanto medo que eu comecei a enlouquecer e a sonhar com todos os meus pecados e em como seria ir pro inferno. Todas as vezes que ela aparecia na sala de aula o meu coração batia mais rápido. Não era de alegria, era de pavor.

“Meu Deus, no que mais eu estou errada?” Eu ficava pensando. O tempo foi passando e conheci esse meu ex namorado, que também era da igreja, mas de uma denominação diferente e ele fez com que eu gostasse de estar lá, de tocar violão e de fazer parte daquele movimento, daquela ideia, daquela religião. Aos poucos o sentimento foi se apagando. Mas ele voltou com tudo quando percebi que tinha me apaixonado pela minha melhor amiga, que hoje é minha namorada. Enfim, fiquei durante seis anos, seis longos e eternos anos, lutando contra aquele sentimento, namorando esse cara (ele sabia do que eu sentia por mulheres), dizia que tudo ia ficar bem, que eu seria curada, que casaríamos e seriamos felizes para sempre, como nos filmes romanticos e evangélicos que víamos nos finais de semana. Só que a realidade não tem nada a ver com todos aqueles filmes. Terminamos várias vezes. Em uma delas eu e a J ficamos juntas por uma semana e no final ela sumiu por que não estava preparada, por que assim como eu, também estava envolvida com igreja x pecado. Fiquei perdida, voltei com esse namorado e continuamos por mais alguns meses. 

Terminamos pela última vez quando eu não suportava mais sufocar quem eu era e quem eu queria. Eu não suportava mais me afogar na religião, na fé e esperar por aquele milagre que meu ex havia me prometido. E eu estava cansada de sofrer todas as vezes que via a J e não podia estar com ela. Tomei uma decisão dificil e ME escolhi. Não escolhi a igreja, nem meu ex, nem a J, nem nenhuma outra coisa. Eu ME escolhi. Quis buscar a J naquela época, mas ficamos seis meses sem conversar depois de todo aquele rolo. Durante esses seis meses eu tentei saber quem eu era e o que eu realmente queria, por que no fundo eu era o que a igreja fazia de mim e o que o meu ex fazia de mim. Não sabia quem eu era até terminar aquele namoro. Comecei a me conhecer e ainda estou me conhecendo nesse sentido. Conversar com minha pscicóloga também ajuda muito.

Quando vejo reportagens e comentários como aqueles, me sinto profundamente triste, por que eu sei que a pior maneira de lidar com os sentimentos é fugir deles. Fugi o quanto pude e me libertei quando fui eu mesma. Não é fácil, muito pelo contrário. Quando meu ex me disse que eu escolhi o caminho fácil, eu disse que não tinha nada de fácil “ser fora do comum”, que não era fácil encarar essa realidade, que não era fácil não poder andar de mãos dadas na rua por ter medo de ser agredida. Nada na vida é fácil e ser diferente torna tudo mais complicado.

Vejo as pessoas dizerem que os gays agora tem regalias, tem mais direitos. Desde quando ter regalias é ser espancado na rua? Ser ridicularizado na frente das pessoas? Ter sua vida marcada pelo medo de opiniões tão frias e velhas? Direitos e regalias não nos darão segurança e paz. Somente uma mudança no olhar da sociedade, uma visão mais ampla sobre as pessoas, somente essa igualdade, esse amor pelo próximo, independente de sexualidade, cor, etnia, e bla bla bla, pode nos dar o que realmente queremos. O que eu quero? Quero ser feliz, sem ter medo de dançar valsa com a minha namorada na minha formatura, andar na rua de mãos dadas, por exemplo.

Então pensem nisso, repassem o blog para a galera (papagaio, cachorro, gatinho, amigos, amigas, papai, mamãe e por ai vai).

– D

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3 comentários sobre “Desabafo da noite

  1. Olá meninas 🙂

    Achei o blog de vocês pelo do Cara Comum. E olha, vou dizer pra vocês que o que mais tem é gay nessa blogosfera hahaha.

    Lendo esse texto, lembrei de um episódio recente em que eu e meu namorado discutíamos com um dos inquilinos da república que eu moro (que é da igreja batista), que na cabeça dele “cura gay” é uma coisa positiva e tem que existir, que as pessoas tem que ter o direito a querer reverter a sexualidade e impedir a cura gay é um atentado a liberdade de escolha das pessoas.

    Vai explicar? Foram umas 7 ou 8 horas de discussão. E mudou-se muito pouco do que ele pensa.

    Curtido por 1 pessoa

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