Rede inconveniente de comunicação

Hey, galera.

Aqui é a D. Depois de algum tempo sem postar, estou de volta e com um tema um pouco diferente e até mesmo um pouco chocante. Sei que muitos vão discordar e ler até a metade ou nem chegarão a ler por ser um texto diferente e um desabafo sobre algo extremamente sério.
Bom, como correu rapidamente pelo whatsapp essa semana, alguns já devem saber a respeito de uma mulher que subiu na ponte antiga de Florianópolis e pulou. Queria compartilhar com vocês a minha visão de enfermeira e de paciente em um processo terapêutico a quase dois anos.
Quando eu soube do ocorrido, eu fiquei em choque, não apenas por que ela cometeu suicídio, mas também por que alguém resolveu gravar, fotografar e mandar para as pessoas, como se fosse o vídeo de um lindo cachorrinho correndo pelas colinas da alegria. Estamos falando de um ser humano, que devido a tamanho sofrimento, decidiu tirar a própria vida. E se fosse um parente seu? Ou um amigo que há algum tempo se fez indisponível e está desacreditado da vida, com medo dos pais descobrirem que é homossexual. Ou talvez você, que não vê saída desse pesadelo e desse país repleto de preconceitos, bancada evangélica, gente egoísta e por aí vai.
Essa semana já ouvi de tudo: “Mas que absurdo, eu nunca faria uma coisa dessas!”. “Nossa, tanta gente querendo viver e chega uma louca dessas e se mata”. EU discordo dessas palavras, e sabe por que? Primeiramente por que nos meus estágios de psiquiatria eu pude conhecer o lado dos depressivos, bipolares, esquizofrênicos e posso dizer que essa depressão tão cruel e mortal é uma doença e não um mero “quero chamar a atenção”. Ou vocês acham que a mulher decidiu no mesmo dia que ia subir no topo da maldita ponte e se jogar só por diversão, “pra ver no que ia dar” ou para chamar a atenção?
Esse assunto me incomodou, por que ainda há um pré conceito relacionado ao suicídio. Ainda tem gente que acha que isso não é sério e que se “der uns tapas a pessoa melhora”. O CARALHO que melhora. Vou dizer o que pode ajudar… Um bom terapeuta, exercício físico, atendimento especializado, compreensão da família, amor e esperança. Sim, esperança, por que essa pessoa precisa que alguém lhe diga que apesar de se sentir uma “bosta”, ainda tem como sair desse labirinto de pensamentos negativos e de morte.
Independente de quem você seja, branco, verde, azul, moreno, grisalho, bonzinho, malvado, gay, trans, bi, hetero, enfim, a depressão e o suicídio são assuntos que devem ser discutidos e levados com seriedade, por que para a pessoa depressiva, aquele sentimento negativo e aquela angustia são muito reais.
Então, galera, repassem esse texto e o nosso blog para quem você conhece.
Com carinho e esperança,
D.
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Estado laico aonde?

Ficamos bastante tempo sem postar, desde o último post em maio, por que passamos por problemas pessoais complicados esse ano. Foi um ano bom, mas também foi um ano ruim. Foi um ano de aprendizados e de crescimento pessoal para nós duas, e enquanto tentávamos descobrir mais uma vez quem éramos acabamos deixando muitas coisas de lado.

Mas isso não vem ao caso agora.

Na verdade estou escrevendo esse post para dar minha opinião pessoal a respeito da crescente bancada evangélica na política brasileira.

Acho importante lembrar, antes de qualquer outra coisa, que todas as religiões atuam com o intuito de anular o outro, a opinião alheia. Em nome de um dogma, em nome de crenças específicas, eles pretendem sempre cada vez mais anular o pensamento diferente e impor sua religião.

Vivemos em um mundo livre, queiram eles acreditarem nisso ou não. Mesmo que a liberdade sempre tenha sido uma qualidade preciosíssima exatamente por ser tão atacada, não há dúvidas de que todos nascemos livre para nos tornamos o ser humano que quisermos nos tornar. Isso se relaciona com o princípio da dignidade humana, por que deve ser de livre escolha de todas as pessoas poderem buscar ser quem esperam que sejam.

Um pensador chamado OSHO dizia que ele não era contra nada nesse mundo, nem à riqueza, nem ao sexo, nem à nada, e não por que ele gostaria de ser livre para possuir todas as liberdades de forma egoísta, mas por que ele acreditava que o caminho para a maturidade, para o crescimento, era a liberdade. Enquanto você não se desprender dos seus dogmas pessoais e ou das imposições morais da sociedade, você tende a agir da maneira que imagina ser esperada de você e não como realmente gostaria. Isso não quer dizer que todos devam então se tornar pervertidos ou gananciosos, isso também não seria buscar a liberdade, isso significa que você precisa ser aberto para seus desejos íntimos sobre quem você quer ser e no que você quer acreditar. Isso quer dizer que você deve procurar na vida exatamente aquilo que te faz sentir você mesmo. Essa é só uma maneira tosca de tentar passar um pouco das palavras de OSHO, que são muito mais profundas do que isso.

O fato é que eu não acredito que qualquer religião baseada em dogmas consiga realmente se apropriar de espiritualidade. Há respingos dela aqui e ali, mas elas são, basicamente, feitas de dogmas. E dogmas são uma forma terrível de cerceamento da liberdade.

De qualquer forma, devemos ser todos livre, para buscar o caminho da religião, o caminho da espiritualidade, o caminho do agnoitismo ou qualquer que seja o caminho a que pretendemos seguir.

No entanto, a militância evangélica na política brasileira vem trabalhando precisamente para que ocorra a retirada de direitos e liberdades à certas classes minoritárias da sociedade, muito marcantemente as mulheres e os homossexuais. Se a incursão evangélica se dá de fato pela busca do dogma ou pela busca do poder e do dinheiro, pode ser difícil dizer. O que é fácil saber é que estas igrejas são extremamente ricas às custas da exploração de seus fiéis.

Mas não quero entrar nesse mérito agora. Importante para mim nesse momento, como homossexual, é protestar contra um grupo conservador maioritário que pretende anular direitos de grupos em favor de seus dogmas. Dogmas são baseados em fé, não são baseados em estudos. Dogmas não querem saber do que realmente se conhece sobre a liberdade. Dogmas não se interessam em estudar a sociedade e sua complexidade, a formação das culturas e os pensadores clássicos. Dogmas só querem se impor autoritariamente enquanto esmagam a diversidade. Quero ser livremente gay, quero buscar livremente meu crescimento espiritual. Se faço isso com uma religião ou sem ela o problema é meu. Não sou obrigada a “amar” o pobre coitado do Jesus como eles querem que eu o faça, nem sou obrigada a repetir como um papagaio os absurdos que os evangélicos repetem.

O Estado é laico, mas nem tanto. Mesmo que o laicismo do Brasil não seja diretamente positivado na constituição, alguns dispositivos delimitam a relação entre o Estado e as religiões aqui dentro. É um Estado que separa assuntos de Estado e assuntos religiosos até certo ponto, mas, como não poderia ser diferente devido à nossa história, assegura a propagação das religiões em alguns assuntos, como ensino religioso em escolas públicas, isenção de impostos para igrejas e templos, etc.

Que as religiões sejam livres para praticarem suas atividades tudo bem, mas que elas nos deixem livres para praticarmos as nossas também. Não é uma bíblia mal interpretada que pode determinar o grau da minha integridade. E não, eu não to com o demônio no corpo!!

Enfim, foi só um desabafo. Esse semestre na faculdade tive que fazer um trabalho sobre o Estado laico e tive bastante o que pensar sobre o assunto. Inclusive tenho ótimas indicações de leitura para quem quiser se aprofundar no tema. Mas que se prepare, por que a maioria é grande!

A única coisa que eu queria era respeito, por quem eu sou e pelo o que eu acredito. O mundo é muito melhor quando a gente respeita as diferenças, quando a gente não tenta sufocar direitos alheios.

Não tem nada de santo ou de nobre na incursão política dos evangélicos, tem provavelmente é muito dinheiro envolvido por trás, mesmo que baseado em dogmas para se chegar até ele. Talvez eles tenham que subir nesse pedestal que estão se colocando para levar um tombo feio como a Igreja Católica levou. Longe de mim acreditar que os católicos tenham aprendido o suficiente, parece que ramos crescentes e mais rígidos dessa igreja tem crescido nessa onda também, mas os evangélicos tão só começando, e isso é preocupante. Sinceramente, não espero coisas boas para o futuro da diversidade no Brasil, nas próximas décadas. Eu e a pi (como eu chamo a D) temos conversado bastante sobre morar no exterior, e aconselho também aos homossexuais que buscam criar relações duradouras que o façam também, por que direitos primordiais que vêm sendo conquistados por todo o mundo tem caminhado na contramão das expectativas aqui em solo brasileiro. Não espero muito do Brasil para um futuro próximo, não espero mesmo.

E é isso.

Paz e amor!

J.

Porquinha teu cú!

Hello, people!

Antes de ontem voltando do McDonald’s com a D a gente se lembrou de uma coisa engraçada que aconteceu no nosso primeiro ano de namoro e que ainda faz a gente rir um monte.

Naquela época, por motivos que prefiro não compartilhar, ela me chamava de porquinha.

Um dia, no ano retrasado, a gente resolveu assistir o show do Emmerson Nogueira, que ia acontecer perto da minha casa de praia e por isso a gente decidiu dormir por lá mesmo. Quando chegamos lá na casa depois do show a gente se ajeitou para dormir e nos enfiamos embaixo das cobertas. Aí se pá, beijinhos, e abracinhos, e tudo muito gostoso, e então chegando nas preliminares a D resolve, com a cara mais fofa e meiga do mundo, me chamar de “hummm porquinha”. Aí eu parei tudo, olhei bem pra ela e respondi: “porquinha teu cú!” E aí então do nada, pra acabar de vez com o clima, eu tive um acesso de riso que durou pelo menos uns cinco minutos, e depois de rir até achar que ia morrer (eu simplesmente não conseguia parar, foi muito hilário na hora) fiquei exausta, virei pro lado e dormi.

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Agora vou tomar o lugar da J e agir em minha defesa (ou não) e dizer que porquinha é carinhoso, mas infelizmente tem um certo significado obscuro que eu to me coçando pra não contar. Mas enfim, esperei a J terminar a risada escandalosa, e quando ela se acalmou, virou para o lado e caiu no sono. Levantei a cabeça umas duas vezes para ver se era verdade e deitei a cabeça no travesseiro, frustrada e arrependida.

Pessoal, uma dica simples: nunca chamem sua namorada (seu namorado) pelo apelido que você usa pra sacanear com ela (ele), ou você pode acabar frustrando sua noite romântica.
Com amor,

D e J

Mário, sai do armário!

Hello, people!

Ontem eu e a D viajamos cerca de 50 Km, ida e volta, só para jantar a melhor pizza de Pepperoni que a gente já comeu. Vou dizer, vale a pena, mesmo com a gasolina a R$ 3,00. Enfim, fomos e foi ótimo. Não escondemos que somos namoradas, nos abraçamos e demos beijinhos como qualquer casal, e fomos super normalmente atendidas pelo pessoal. Yay!

O que é totalmente diferente de uma lanchonete titica que fomos mês retrasado, em que o garçom me tratou com um super deboche quando eu disse que sim, tinha acompanhante – a minha namorada que tava no banheiro. Junto com o bêbado idiota da mesa do lado que derrubou nossa cerveja (no meu colo) e não se deu ao trabalho de se virar e pedir desculpas, e o lanche meio comido de alguém que embrulharam para a viajem ao invés do resto das batatas fritas que pedimos (acredito que de proposito, porque eu vi os garçons conversando e apontando pra gente na hora), foi a pior saída pra lanchar que a gente já teve até agora. Fiquei tão indignada quando eu vi o lanche meio comido de um estranho no lugar das batatas, no outro dia, que coloquei cocô de cachorro na caixinha dele e deixei na porta da lanchonete mais tarde, antes de eles abrirem. Não foi a coisa mais bonita que eu já fiz na vida, tudo bem, mas cara como eu fiquei puta da cara! Nunca me senti tão orgulhosa do cocô fedido do meu pastor alemão como naquele dia. Pensando bem devia ter colocado o da gata, por que por incrível que pareça aquela coisinha consegue feder mais. Ou os dois juntos, quem sabe.

Enfim, foi horrível.

Tava relendo o post anterior da D e me lembrando da minha adolescência também, quando ser gay para mim não era nem uma opção e eu ficava com guris por que achava que devia ser assim. Era tipo uma sensação de dever, “fique com garotos, como todas as garotas!”, mas cara, aquilo não me dava tesão. Só fui sentir tesão de verdade a primeira vez que eu beijei a D, e eu tinha já uns 18, 19 anos na cara, eu acho. E fiquei horrorizada, ao mesmo tempo, por que eu realmente vinha passando por uma fase religiosa que me fez sentir como se eu tivesse comprando um bilhete de passagem pro inferno. Ah, as coisas que enfiam na nossa cabeça. Inacreditável.

Era a melhor sensação que eu já tinha tido na vida, estar com a D, mas eu estava mortificada de achar que vinha fazendo alguma coisa que parecia supostamente tão errada. E respingos dessa época ainda existiam dentro de mim até ano retrasado, quando começamos a namorar sério, e até eu entender que a vida é feita de amor, não de regras e dogmas, custou para eu conseguir me sentir realmente bem.

Meu pai ficou chocado quando eu contei. Ele disse que me apoiava, que queria que eu fosse feliz, talvez ele tenha achado que era uma fase, sei lá, mas sei que no começo foi difícil para ele aceitar aquilo. Hoje em dia está tudo bem, mas no começo minha madrasta precisou conversar muito com ele para que ele realmente aceitasse e entendesse. E entre ele ter priorizado minha felicidade, e minha madrasta ajudar a fazer essa conciliação dentro dele entre quem eu era e quem ele esperava que eu fosse, eu sou grata pela facilidade com que as coisas aconteceram lá em casa. Digo, foi complicado, sim, o começo, mas minha colega de serviço e amiga de alguns anos estava agorinha mesmo me falando sobre uma prima dela que contou para os pais que tinha uma namorada e eles trancaram ela no quarto e esconderam o celular. Senhor senhor senhor. Senhor.

E quando eu disse que o homossexualismo para mim não era nem opção eu realmente quero dizer isso. Cresci com minha mãe até os 15, que foi quando não aguentei mais nossos desentendimentos e fui morar com meu pai, e o sentimento que me lembro hoje de ter na época sobre a homossexualidade era o de que era alguma coisa quase abominável. Não era algo que nem se discutia na mesa, era algo para o qual se virava a cara. Então ficar com garotos, gostar de garotos, não era nada mais que natural, e eu não percebia que pra mim também não era nada mais que obrigação. Eu tinha que seguir o livrinho da sociedade, todas as regras dele. Cantar exatamente a mesma música. Era simplesmente a coisa “certa” a de fazer. Meu deus, quanta ansiedade seria poupada se eu não viesse desse ambiente de negação. Era uma vida que se vivia para o outro, não para você mesma. Desde a roupa que se vestia, a maneira que se falava, desde o que se deveria pensar sobre as coisas… Nada era seu, era tudo já pronto, tudo senso comum.

Foi chocante me apaixonar daquela forma pela D. Foi louco, balançou todo o meu mundinho pequeno. Foi o que me poupou de ter uma vida ordinária, de pensamento pequeno. Salvou toda a minha alma de crescer confinada numa vida roubada, talvez noiva de alguém que eu me sentia obrigada a amar. A D salvou meu traseiro com a insistência dela, por que, e não é sem certa vergonha que, eu admito que sempre fui um tanto covarde quando se trata de encarar as ditas regras da sociedade, já que foi o ar que eu cresci respirando. Não é algo que eu fazia sem ansiedade, tão grande foi meu “adestramento” quando eu era pequena.

Mas viva a D e sua alma alternativa. Os olhos dela brilham com todas as cores do arco-íris! (O que quer que isso signifique).

Então, para todos os gays no armário, com medo de “pisar fora da linha” e ser quem realmente são, meu único conselho é que, por mais que seja difícil pra caralho às vezes estufar o peito e se admitir diferente, a gente só é feliz quando se permite ser exatamente quem quer ser, então ao invés de viver a vida que os “outros” esperam que você viva, escolha você mesmo, como a D disse, por que no final das contas ninguém tem nada de diferente realmente, somos todos iguais. Portanto, Mário, sai do armário!

– J.

Desabafo da noite

Boa noite, galera.

“We were born sick
you heard them say it”

Resolvi escrever esse texto por que tem uma coisa me incomodando muito hoje. Vendo os vários comentários em uma reportagem sobre duas mulheres grávidas (lésbicas), comecei a pensar na época em que eu participava da igreja evangélica. Sim, já participei por alguns anos, onde eu costumava ir com meu ex namorado, com quem namorei durante cinco anos (entre idas e vindas). Mas ok, vamos começar pelo começo.

Desde pequena tive aquela sensação de que alguma coisa estava diferente em mim, mas não pensei muito até realmente começar a me sentir atraída por mulheres (meninas, naquela época). Conheci uma menina com quem me identifiquei, passamos por muitas coisa semelhante e acabamos descobrindo que as duas gostavam de meninas. Nos envolvemos e ficamos duas vezes. “Para saber como que é”, ela dizia. Dois meses depois destes beijos e abraços, ela começou a frequentar a igreja adventista, e todos os dias ela trazia alguma coisa nova para mim. Falava sobre o céu, o inferno, pecado, homossexualidade e sobre como tínhamos sido pecadoras. E estava na hora de eu me converter e fazer o que Deus realmente queria (nem eu sabia o que era), mas lembro de ter ficado com tanto medo que eu comecei a enlouquecer e a sonhar com todos os meus pecados e em como seria ir pro inferno. Todas as vezes que ela aparecia na sala de aula o meu coração batia mais rápido. Não era de alegria, era de pavor.

“Meu Deus, no que mais eu estou errada?” Eu ficava pensando. O tempo foi passando e conheci esse meu ex namorado, que também era da igreja, mas de uma denominação diferente e ele fez com que eu gostasse de estar lá, de tocar violão e de fazer parte daquele movimento, daquela ideia, daquela religião. Aos poucos o sentimento foi se apagando. Mas ele voltou com tudo quando percebi que tinha me apaixonado pela minha melhor amiga, que hoje é minha namorada. Enfim, fiquei durante seis anos, seis longos e eternos anos, lutando contra aquele sentimento, namorando esse cara (ele sabia do que eu sentia por mulheres), dizia que tudo ia ficar bem, que eu seria curada, que casaríamos e seriamos felizes para sempre, como nos filmes romanticos e evangélicos que víamos nos finais de semana. Só que a realidade não tem nada a ver com todos aqueles filmes. Terminamos várias vezes. Em uma delas eu e a J ficamos juntas por uma semana e no final ela sumiu por que não estava preparada, por que assim como eu, também estava envolvida com igreja x pecado. Fiquei perdida, voltei com esse namorado e continuamos por mais alguns meses. 

Terminamos pela última vez quando eu não suportava mais sufocar quem eu era e quem eu queria. Eu não suportava mais me afogar na religião, na fé e esperar por aquele milagre que meu ex havia me prometido. E eu estava cansada de sofrer todas as vezes que via a J e não podia estar com ela. Tomei uma decisão dificil e ME escolhi. Não escolhi a igreja, nem meu ex, nem a J, nem nenhuma outra coisa. Eu ME escolhi. Quis buscar a J naquela época, mas ficamos seis meses sem conversar depois de todo aquele rolo. Durante esses seis meses eu tentei saber quem eu era e o que eu realmente queria, por que no fundo eu era o que a igreja fazia de mim e o que o meu ex fazia de mim. Não sabia quem eu era até terminar aquele namoro. Comecei a me conhecer e ainda estou me conhecendo nesse sentido. Conversar com minha pscicóloga também ajuda muito.

Quando vejo reportagens e comentários como aqueles, me sinto profundamente triste, por que eu sei que a pior maneira de lidar com os sentimentos é fugir deles. Fugi o quanto pude e me libertei quando fui eu mesma. Não é fácil, muito pelo contrário. Quando meu ex me disse que eu escolhi o caminho fácil, eu disse que não tinha nada de fácil “ser fora do comum”, que não era fácil encarar essa realidade, que não era fácil não poder andar de mãos dadas na rua por ter medo de ser agredida. Nada na vida é fácil e ser diferente torna tudo mais complicado.

Vejo as pessoas dizerem que os gays agora tem regalias, tem mais direitos. Desde quando ter regalias é ser espancado na rua? Ser ridicularizado na frente das pessoas? Ter sua vida marcada pelo medo de opiniões tão frias e velhas? Direitos e regalias não nos darão segurança e paz. Somente uma mudança no olhar da sociedade, uma visão mais ampla sobre as pessoas, somente essa igualdade, esse amor pelo próximo, independente de sexualidade, cor, etnia, e bla bla bla, pode nos dar o que realmente queremos. O que eu quero? Quero ser feliz, sem ter medo de dançar valsa com a minha namorada na minha formatura, andar na rua de mãos dadas, por exemplo.

Então pensem nisso, repassem o blog para a galera (papagaio, cachorro, gatinho, amigos, amigas, papai, mamãe e por ai vai).

– D

Introdução da introdução da J linda

Boa noite, quem escreve agora é a D.

Como minha linda namorada já mencionou, nosso blog vai servir de ajuda para as pessoas, que como nós, tiveram ou tem dúvidas com relação a sua sexualidade e por meio das nossas experiências, vamos ajudar e dar a cada um o conforto e o apoio necessário para que possam levar a vida do jeito que realmente querem e não do jeito que outros querem.

Fiz um intercâmbio para os Estados Unidos em 2013-2014 e morei por três meses e meio em Orlando, na cidade onde o Mickey realiza nossos sonhos e onde há bondade. De fato, existia bondade naquele lugar. Não devemos nos enganar, todo lugar tem pontos positivos e negativos, mas morar lá foi um choque de realidades. No primeiro dia em que fui visitar o local onde ia trabalhar, uma futura colega de trabalho perguntou se eu e mais alguns amigos estávamos de carro e quando dissemos que não, ela tirou as chaves do bolso e disse “gente, peguem meu carro e amanhã vocês trazem, imagina se eu vou deixar vocês irem à pé”. Se fosse eu, aqui no Brasil, eu nunca ia emprestar o meu carro, muito menos para quem eu não conheço. Já é difícil eu deixa a J dirigir meu carro, quanto mais uma pessoa de outro país que eu nunca vi. Bom, o que interessa nessa história é que aos poucos eu pude compreender que os americanos costumam confiar nas pessoas, eles dão aquele voto de confiança, que nós brasileiros nem sonhamos, já que vivemos sempre com medo de ser apunhalados pelas costas.

Além disso, viver lá foi fácil para mim, sendo gay. Eu não era julgada, ridicularizada, muito pelo contrário, eles faziam o possível para conversar comigo e me conhecer, por que acreditam que a pessoa não se define por onde mora, por quem namora, por onde costuma ir, mas pelas atitudes. Achei estranho voltar para o Brasil e para o trânsito louco e para os governantes que não se importam de encher os próprios bolsos enquanto a sociedade sofre em silêncio por que não teve um ensino de qualidade, onde pudessem compreender sobre política e o direito humano. Por essa falta de ensino de QUALIDADE e por vivermos sobre o julgamento eterno da igreja, é que as pessoas se apresentam tão preconceituosas.

Não devemos confundir preconceito com preferências ou discórdia de opiniões. Por exemplo, minha professora da faculdade não gosta de tatuagem, diz que para ela não serve para nada, mas respeita quem tem. Essa é a preferência dela. Ela simplesmente não gosta de tatuagem. Mas o preconceito a gente vê várias vezes nos jornais, quando homossexuais são atacados no meio da rua, nas baladas, nos bares, apenas por serem homossexuais, por serem pessoas como todas as outras, que comer, dorme, fazem cocô, fazem sexo, se amam, se odeiam, se preocupam e trabalham, assim como todo mundo.

Já fui questionada várias vezes sobre como era o sexo no meu namoro. Como funciona, quem era ativo e quem era passivo, o que fazia e todas essas baboseiras absurdas de quem não tem mais o que perguntar. Gente, qual é o problema? O que vocês querem saber sobre o sexo? Apresento a vocês o GOOGLE, um site maneiro e cheio de informações se vocês procuram detalhes. Mas o real problema da sociedade preconceituosa está no sexo e em como é feito. E o amor? Como ele é feito? Não interessa, o que interessa é que duas pessoas se amam e se satisfazem de uma maneira que somente eles entendem e sentem. Ponto final.

Espero que curtam nosso blog e que compartilhem ele com seus amigos, vizinhos, parentes, papagaios e demais animais de estimação.

Introdução

Olá, J por aqui!

Eu e a D tivemos a ideai de criar esse blog para contarmos um pouco da nossa rotina e de nossas experiências como um casal gay nessa cidade tão linda (porém tão atrasada) que é Florianópolis.

A ideia surgiu primeiro quando eu comentei com ela sobre alguns dos blogs que eu acompanho de casais de mulheres lésbicas, que contam sobre suas histórias de vida ou se felicitam com as pequenas e grandes vitórias do mundo LGBT, ou simplesmente mostram situações do dia a dia que podem ser engraçadas ou desafiantes, mas que são essencialmente “normais”.

Acho que o assunto surgiu enquanto a gente comentava sobre como era complicado muitas vezes para nós duas termos que passar por situações comuns como um casal, e então eu falei desses blogs, e sobre como essas mulheres eram orgulhosas de quem eram e tinham uma vida perfeitamente “normal”, e sobre como era legal que tinha muita gente ativa, militando pela causa, falando com orgulho sobre suas vidas. Só que então a D me fez uma pergunta que foi bem capciosa, na verdade: “mas elas são aqui do Brasil?” Er… não. Pois é. Não são do Brasil.

E não é que o Brasil não seja gay até uma certa porcentagem, na verdade eu acho que a gente tem gay pra caramba caminhando por aí (graças a deus), mas o problema é que o Brasil também é um país machista, um país sexista, um país moralista e portanto um país cabeça dura pra caramba. E parece que em Florianópolis as coisas são ainda mais difíceis – as pessoas são mais fechadas, são interesseiras, e não, elas não te respeitam pelo o que você.

O fato é que a gente sente que não pode ser quem é, quem gostaríamos de ser realmente. Não podemos com naturalidade dar as mãos na rua ou dar um beijinho uma na outra, ou dizer em uma lanchonete que estamos esperando a namorada sem que mudem o tratamento para com a gente, ou sem que alguém lance alguns olhares tortos. É bem chato na verdade. Eu particularmente ainda preciso a aprender a lidar com isso todos os dias, primeiro por que ter que esconder algo que é parte de mim e me faz feliz me soa como injustiça (o que eu supostamente não tenho que os outros tem, ou o que eu supostamente não sou que os outros são de tão melhor?), e também por que eu tenho os meus próprios problemas pessoais com insegurança, e ter que viver como uma criminosa, escondendo alguma coisa, não sendo quem eu gostaria de ser ou fingindo ser o que eu não sou (“diz que é só a sua amiga para não dar rolo, não dança com ela na formatura por que pode complicar as coisas, alguém pode bater em vocês”) acaba comigo. Eu não fiz nada de errado. Sou tão gente quanto qualquer outra gente, e amo outra pessoa que é tão gente quanto qualquer outra gente também.

Pode ser inocência minha querer uma vida “normal”, as pessoas podem perguntar “que vida normal você quer sendo lésbica nesse mundo?”, mas acho que eu tenho sim o direito de ser “normal”, de meter a cara no mundo me sentindo “normal”, agindo “normal”. As pessoas vão dizer “se esconde por que podem bater em você, se esconde por que ainda tem muita violência contra gente que nem você por aí!”, e eu penso “muito obrigada pela preocupação, de verdade, mas então o mundo LGBT precisa se esconder para o resto da eternidade, esperando uma mudança milagrosa dos ventos, que indique que as cabeças pequenas já aprenderam a aceitar melhor quem nós somos?” Uh-uh, I don’t think so. Eu entendo de verdade a preocupação de quem nos diz esse tipo de coisa, ninguém gosta de ver alguém querido correndo qualquer risco de se machucar, mas também acho que a gente não pode deixar esse moralismo babaca nos obrigar a baixar a cabeça e dizer “amém” para uma sociedade preconceituosa.

Quanto a sermos agredidas nada do tipo aconteceu com a gente até agora, então não posso falar nada a respeito disso como experiência pessoal, mas todo mundo sabe que bastante gente já foi agredida por ser gay, e aqui no Brasil, um país tão preconceituoso como ele é, imagino que seja uma realidade bem palpável, principalmente para os homens gays por que tem muita pressão em cima deles para que todo homem brasileiro seja “macho”. Não sei o que esse homem brasileiro tem que ele precisa sempre ser “macho”. Vai ver no fundo ele é gay e não quer admitir, ou não precisava se afirmar tanto.

E essa é uma das coisas que me incomoda bastante aqui de Florianópolis, por que aqui parece ser mais pesada essa questão do machismo, do sexismo, do moralismo. É como se as pessoas precisassem apontar a “falha” alheia para afirmar o próprio valor, o próprio caráter. Tipo, sério, gente? Caráter surge de dentro pra fora, não de fora pra dentro.

Mas o que animou a gente a escrever esse blog juntas foi tentar de alguma forma criar um espaço maior para um casal gay, e brasileiro, e mostrar a nossa realidade, tentar de alguma forma colocar a nossa vida no campo do “normal”, do “comum”.

Não fui atrás de blogs brasileiros sobre casais de mulheres lésbicas ou homens gays então não sei como anda a situação deles no momento, se já tem algum, e quantos são, e etc, e se tiver eu com certeza gostaria de seguir. Seria bom sentir que tem mais gente por aqui interessada em se abrir para o mundo, às vezes a gente pode se sentir bastante sozinha.

E não sei se é essa cidade que é difícil, que é pesada de se viver de certa forma, ou se é o tratamento cheio de dedos das nossas famílias, principalmente quando começamos a namorar, só sei que às vezes eu sinto como se tivesse que viver como uma criminosa, como uma pária até, alguém que comete um crime todos os dias por que tem uma namorada. Não sei colocar em palavras o quanto isso pode ser difícil, mas é algo que pesa, e que cansa, por que não, eu não sou criminosa, nem pária, e eu não cometo crime todos os dias. (E também minha namorada é linda pra caramba, e a beleza chegou ao mundo para ser vista e é muito mais legal se ela tá andando de mãos dadas comigo).

E toda essa dissimulação cansa, ninguém gosta de viver numa jaula etiquetado como, sei lá, “bicho estranho”. A gente quer respirar, a gente quer respeito, a gente quer tanto espaço quanto qualquer outra pessoa, e, não, gaytite não é uma doença e não se pega pela respiração, então pra quem não entende a nossa realidade direito ainda o melhor é cuidar da própria vida que a gente consegue cuidar legal da nossa.

Enfim, a gente tem algumas histórias para contar de algumas situações que aconteceram conosco, nada muito sério, por que nada de sério aconteceu realmente até agora, mas somos um casal gay tentando viver um dia depois do outro, e vamos postar coisas do nosso dia a dia e falar sobre nossa realidade tentando mostrar o quanto tentamos fazer as nossas vidas serem “normais”.

Have fun!

PS.: Aqui no meu trabalho qualquer site com a palavra “gay” parece que é bloqueado. Tentei fazer uma pesquisa para achar blogs gays aqui do Brasil e até achei alguns, só que essa titica censurou todas as páginas, então não faço ideia do que que eles falam realmente. Mas eu devia ter prestado atenção nos nomes que apareciam nos links também, eu coloquei “blog gay” na barra de pesquisa do google e fui abrindo os primeiros que apareceram, e depois eu vi que tinham umas coisas bem suspeitas como “gay-amadoras.blogspot”, “homem-tesao.blogspot” e “boysdecalcinha” hahahaha não acho que o filtro de sites de um órgão público deixaria esse tipo de coisa passar, right?